Queima de etapas?

Estamos assistindo à queima de etapas por adolescentes que deveriam cumprir o ensino médio e estão indo para universidade através de liminares da justiça. Os adolescentes, após passar nos exame de vestibular em universidades particulares ou no Enem, para garantir a vaga nas instituições de ensino superior, ingressam com ação na Justiça.

Vários estudos realizados comprovam que o ensino médio, na atual formatação tem a finalidade de preparar o aluno para o vestibular. A importância dos conteúdos ministrados no ensino médio serve como base para o adolescente para que ele desenvolva sua vida acadêmica com mais preparação, mesmo sabendo da necessidade de um reestudo das finalidades desta etapa. Hoje estamos assistindo à empolgação da família na aprovação prematura do jovem para universidade, sem saber julgar as necessidades da falta de base para continuidade do curso universitário. Será que podemos considerar uma verdadeira queima de etapas?

Voltamos a lembrar de que estamos na direção de uma Faculdade e, como em outros anos, estamos vendo familiares chegando com muita alegria e satisfação com as ações judiciais obrigando à faculdade matricular o jovem sem a conclusão do Ensino Médio, como por exemplo, para o curso de Engenharia. Sabemos que na opinião de estudiosos em ensino superior a idade é entre 18 e 24 anos, seria a faixa ideal, conforme o período de escolarização normal.

Vale ressaltar o parecer do o promotor Sérgio Fernando Harfouche, titular da 27ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude, avalia que a formação precoce de jovens no ensino superior afeta negativamente a sociedade.

“A precipitação tem sido um desastre para o país no fornecimento de serviços. O Brasil enfrenta sérios problemas de despreparo profissional, especialmente do ensino superior e estamos formando adultos. A situação irá se agravar a partir do momento em que pessoas ainda mais jovens ingressarem no mercado de trabalho com formação superior.”

Na continuidade do parecer o promotor faz uma análise das liminares que estão sendo proferidas pelos juízes que vale a pena declinar, lembrando que os jovens menores de 18 anos, conforme a lei não responde pelos atos praticados:

“Eles são imputáveis, portanto é preocupante que ingressem muito cedo na faculdade. Decisões judiciais que permitem que esses jovens ingressem na universidade vão atender o ego dessas pessoas, porque infelizmente essas decisões não estão focadas no interesse público da sociedade”.

Não temos visto estudos nos quais possamos nos embasar sobre o desempenho desses alunos no ensino superior e no mundo do trabalho, porém defendo que o período no ensino médio é importante para uma maturidade intelectual e emocional, como forma de fornecimento e vivencia necessária para o desenvolvimento do jovem no curso superior e no mercado de trabalho.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, deixa claro a flexibilidade para conformação dos estudantes em acordo com sua capacidade intelectual aliada a idade, a educação infantil deverá ser desenvolvida com alunos de 4 e 5 anos, o ensino fundamental de 6 a 14 anos e o ensino médio de 15 a 17 anos, temos que observar que a referência está ligado aos alunos na média intelectual, porém, os artigos 4° e 23°da LDBN possibilitam organizações diferentes de acordo com a intelectualidade do aluno, como podemos observar os artigos:

Art. 4º- o dever do Estado com a Educação escolar pública será efetivado mediante a garantia:

V – acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um; (grifo nosso)

Art. 23º – A educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternâncias, regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar. (grifo nosso)

Quando nos detemos no estudo do que pode ser observado sobre Ensino Médio na seção IV da LDBN/96,fica caracterizado que esse nível da educação básica é muito abrangente, quanto à sua finalidade, deixando condições do avançar da etapa, porém sabemos que se as finalidades fossem realmente cumpridas, tínhamos no ensino médio a consolidação do cidadão e cidadã, de forma que ficava menos complexo a continuidade no ensino superior.

Verificamos que o direito à educação, a entrada nos níveis mais elevados de ensino poderia e deveria ser uma situação natural, se não fosse a própria restrição criada pela lei no artigo e inciso mencionado ao demarcar esta condição “à capacidade de cada um”. Vejamos capacidade não como condição final, e sim como uma forma de potencializar, estimular um ambiente externo criativo e inovador. Com essa visão podemos concluir que jovens pobres, em condições de desvantagens sociais e culturais estão incapazes de avançar as etapas previstas na lei.

Art. 35 – o ensino médio, etapa final da educação básica, com duração mínima de três anos, terá como finalidades:

I – a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando o prosseguimento de estudos;

II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores;

III – o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento cítrico;

IV – a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacionando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.

Queimar essa etapa, diante de sua importância para a formação do jovem, dentro do que estamos estudando das finalidades da lei, não é o melhor, porém sabemos da deficiência por que passa o ensino médio no Brasil, ficamos em dúvidas, se aluno não está procurando, queimando essa etapa tão importante,novos caminhos para consolidação de sua formação?

Precisamos saber da sua opinião, professores e alunos. Para isso colocamos à disposição uma enquete para que respondam. Será que essa “Queima de Etapas” é benéfica aos alunos e alunas, ou, se bem acompanhada, não terá nenhum efeito ruim para esse aluno ao se preparar para a vida profissional?

You May Also Like

About the Author: Maceju

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *